Em Caracas, Foro de São Paulo pede reação a avanço da direita na região

Aos gritos de “Não ao intervencionismo”, participantes do Foro de São Paulo, reunidos neste sábado (27), em Caracas, expressaram seu apoio ao governo venezuelano, ao mesmo tempo em que afirmaram a necessidade de renovar a esquerda diante do avanço de governos de direita na região. Centenas de militantes governistas marcharam no centro de Caracas até um palanque, onde partidários da esquerda de vários países faziam discursos em repúdio ao “intervencionismo” na Venezuela, cujo governo atribuiu a pior crise de sua história recente a sanções e bloqueios dos Estados Unidos. O foro, celebrado entre 25 e 28 de julho, discute “a necessidade de uma unidade continental para frear os avanços da extrema direita e da direita no continente”, disse à AFP o ex-guerrilheiro colombiano Rodrigo Granda. “A direita avançou em parte por alguns erros nossos, por outro lado por uma política criminosa de terror e estamos vendo isso país a país, em cada uma das partes do continente”, disse Granda, ex-integrante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Participação brasileira

O Foro nasceu em 1990 com um seminário promovido pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em São Paulo para reunir lideranças de esquerda das Américas. Neste ano o PT e outros partidos brasileiros não vão enviar representantes expressivos para o encontro. Gleisi Hofmann (PT-PR), presidente do partido, esteve presente na edição de 2018 em Cuba, mas não vai participar neste ano alegando conflito de agenda. Em seu lugar, o partido envia duas secretárias. O PCdoB também mandou dois representantes e o PSOL não foi nem convidado pela organização. Ao todo, a delegação brasileira terá 35 pessoas e vai defender o movimento “Lula Livre”, que pede a soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde abril de 2018. Mesmo com a crise, o governo da Venezuela irá custear os custos de hospedagem, alimentação e transporte interno para dois representantes de cada delegação do Foro. A reunião em Caracas acontece durante uma grande crise política e econômica do país, que obrigou mais de 4 milhões de pessoas a emigrar e em que o governo do presidente Nicolás Maduro enfrenta um embate com o oposicionista Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente interino.

Futuro da esquerda

Apesar do terreno conquistado pela direita em países como Brasil, Argentina, Chile e Peru, participantes do Foro de São Paulo – criado em 1990 no Brasil – afirmam que a esquerda segue de pé. “Este foro nos reanima (…) porque tem gente que está desanimada com uma guerra que busca afetar a psiquê”, afirmou Carmen Esparragosa, advogada de 47 anos, que agitava um cartaz com a foto do falecido presidente Hugo Chávez (1999-2013). Enquanto isso, o parlamentar opositor Stalin González acusava o “regime” de Nicolás Maduro de “desperdiçar milhões de dólares organizando foros que não trazem nenhuma solução aos problemas reais do país”, enquanto “a Venezuela padece a maior emergência humanitária da região”. Diosdado Cabello, presidente da governista Assembleia Constituinte, que rege o país com poderes absolutos, saiu ao largo das críticas, ao afirmar que “a vigência do foro e a união dos movimentos de esquerda está doendo na direita”. Entre a multidão destacavam-se cartazes com o rosto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde 2018 na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, condenado por corrupção. “Abaixo o governo opressor do Brasil, abaixo (Jair) Bolsonaro, Lula livre!”, exclamavam os ativistas brasileiros presentes.

Críticas de Bolsonaro

Apesar da diminuição da importância do Foro, os aliados do presidente Bolsonaro continuam atacando o evento. O filho mais novo do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), assinou um requerimento para criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Foro. O escritor e guru de Bolsonaro, Olavo de Carvalho, chegou a dizer que Eduardo deveria recusar ser embaixador do Brasil em Washington para poder se dedicar a cuidar da CPI sobre o Foro de São Paulo, que ele diz ter “controle da mídia, do sistema judiciário e da educação brasileira”. Para Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, as denúncias do site The Intercept Brasil contra a Lava-Jato e o ministro Sergio Moro “fazem parte” da “estratégia” do evento. O presidente Bolsonaro, por sua vez, disse que o encontro planeja “discutir um projeto totalitário para a América Latina”. Fonte:Exame
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